Diego Hypolito e eu. O que nós temos em comum?

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Diego Hypolito e eu. O que nós temos em comum?
Resposta: Histórico de abusos e bullying.
Como isso pode ser devastador para uma criança!!! A criança que é abusada tende a desenvolver um padrão de subserviência e passividade excessivas.
Isso se reflete nas suas relações afetivas, sociais, familiares e profissionais.
Hoje assisti uma entrevista do Diego Hypólito no programa da Fátima Bernardes e me vi representada.
Ele diz que demorou tanto tempo para contar sobre os abusos para os seus pais, porque simplesmente não conseguiu fazer isso antes. Imaginem uma criança entre 9 e 13 anos se sentindo responsável pelo fato da família ter mudado de cidade e estado só para ele poder treinar, passando dificuldades financeiras e ele não querendo “estragar” tudo.
Eu só tive coragem de contar aos meus pais os abusos que sofri na infância quando eu já tinha 48 anos. E só o fiz num momento de desespero, quando minha mãe quis trazer para morar em nossa casa a pessoa que me abusava na infância.
A Fátima Bernardes enfatizou que o sentimento de culpa é muito frequente nas vítimas e uma pedagoga ressaltou que o abusador geralmente faz a vítima sentir-se culpada, dizendo que ela não se defendeu, não fugiu ou evitou o abuso.
Quando eu busquei ajuda pela primeira vez de um Psicólogo, aos 19 anos, ele (o Psicólogo!) disse-me que, se eu não impedi nem delatei o abusador, é porque eu gostava, que eu não era vítima e sim conivente com o abuso. Eu também tinha entre 9 e 13 anos!!!
Diego Hypolito contou que percebeu que na sua vida em geral ele não se defende e que se sujeita a humilhações sem reação.
Volto a dizer: a criança que é abusada tende a desenvolver um padrão de subserviência e passividade excessivas. Isso se reflete nas suas relações afetivas, sociais, familiares, profissionais e romper com esse ciclo e mudar esses padrões é muito difícil.
Além de abusos sexuais sofridos, eu tive uma vizinha mais velha que brincava de escolinha comigo e quando eu errava a lição, ela escrevia de caneta na minha testa para “entrar na minha cabeça”.  Expunha-me ao ridículo, ria de mim, fazia-me sentir incapaz e burra. Isso assistido por outras crianças que também riam de mim.
Com alta miopia e aparelho ortodôntico extra-oral por causa de um dente a mais que eu tinha no céu da boca (extranumerário),  eu era alvo de muitas brincadeiras de mal gosto e chacotas, o que hoje conhecemos por bullying.
Isso tudo somado gerou minha baixa autoestima, insegurança e falta de energia para me defender.
Na vida adulta percebi esses padrões nos relacionamentos afetivos, me sujeitando a pessoas e situações inadmissíveis por medo de me posicionar, mas acima de tudo, por uma necessidade doentia de me sentir ACEITA!
Diego Hypolito contou que sentiu vergonha de olhar para os outros depois que tornou público os abusos e a Fátima Bernardes respondeu que esse sentimento ele nunca deveria sentir, porque ele foi a vítima e não o contrário!
Ele também disse do alívio de ter falado, que isso foi libertador.
Quando tornei públicas minhas experiências, num texto que escrevi em 2015 e depois numa palestra que dei, fui julgada e criticada por pessoas da minha família. Afinal, não devemos expor a podridão da família, não é?!?
Ninguém se importou em saber como EU estava me sentindo. A pessoa que mais me criticou não perguntou como eu me sentia por ter guardado esse segredo e convivido com o abusador durante quase 40 anos! O mais importante era manter as aparências! Isso me dá nojo…
Por fim, no programa, enfatizaram a importância de se falar sobre os abusos sofridos para que outras pessoas saibam que não são as únicas que sofrem e se encorajem a denunciar os autores.
E é isso o que estou fazendo!
Abusos sexuais acontecem em qualquer classe social, entre pessoas da família – justamente aquelas que gozam da confiança da criança e que deveriam protegê-la. Por isso, pais, mães, avós, deem espaço para as crianças falarem. Incentivem-nas a contar tudo, sem censura ou julgamento. Se os pais são rígidos, fechados e não permitem o diálogo, como as crianças conseguirão se abrir e expor uma situação tão grave e íntima!?!?!?!
Se elas tiverem medo de ser recriminadas e até responsabilizadas pelos abusos sofridos, como elas pedirão ajuda!?!
Graças às diversas terapias que procurei e à minha disposição de me libertar dessas memórias traumáticas e de suas consequências nefastas, eu estou aqui me expondo,  afinal, hoje sei que se eu não fizer por mim, ninguém o fará.
Coloco-me à disposição para palestras e bate-papos sobre o tema em escolas, instituições, gratuitamente. Quero levar minha história e meu exemplo para outras pessoas, pois ao fazer isso, sei que estarei ajudando, mas acima de tudo, estarei purgando definitivamente todo o mal que isso me causou.
Rossana Bentivoglio

Abril de 2018

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