Salvamos uma vida

Eu-Sou-2

Depois da morte do Murilo, meu primeiro namorado, levei um tempo para me refazer, mas a vida continuava.  Até mesmo por uma necessidade de ter alguém e sentir-me amada, comecei a namorar um outro moço.

Ele era meu amigo desde o tempo do ginásio e dessa amizade nasceu um relacionamento mais sério.

Aqui confesso que o que eu sentia por ele não era um amor carnal, de homem-mulher. Para mim, ele era muito mais como um grande amigo em quem eu podia me apoiar. Ele tinha uma história de vida muito trágica – seus pais haviam morrido de forma brutal (assassinato e suicídio) e assim nós dois nos apoiávamos. Ambos conhecíamos a dor da separação prematura. 

Ele era muito reservado, muito calado.  Não tocava no assunto da morte dos pais e eu, para não machucá-lo, respeitava seu silêncio.  Mas justamente por ele não manifestar sua tristeza, não falar sobre o assunto, não fazer terapia, essa dor se tornou insuportável para ele.

Numa sexta-feira fomos ao circo.  Sim, ao circo!  Há anos eu não ia num circo e naquela ocasião tivemos a oportunidade de assistir um lindo espetáculo.  Nós morávamos em São Paulo, era década de 90.

Depois do espetáculo, quando ele foi me levar em casa, desceu do carro, esperou eu destrancar o portão e me deu um abraço de despedida. Foi um abraço longo, demorado…  Eu senti algo estranho, uma angústia e perguntei o que estava acontecendo.  Ele disse que não era nada e foi embora. Eu fui dormir cismada.

No dia seguinte, no sábado, tínhamos marcado de sair com um casal de amigos. E o ponto de encontro seria a minha casa.  No entanto, esse meu namorado morava muito longe e ele costumava vir para minha casa mais cedo, no período da tarde.

Foi anoitecendo, o casal de amigos chegou e nada dele aparecer!  Já eram 8 horas da noite e comecei a ficar inquieta.  De repente, voltou-me a sensação daquele abraço da noite anterior e me deu um frio na espinha.  Ali eu soube que havia acontecido algo grave com ele.

Eu insisti para irmos até a sua casa, mas meu amigo dizia que era bobagem, que iríamos nos desencontrar (na época não havia celular e ele não tinha telefone fixo em seu apartamento).

Eu disse que se ele quisesse esperar, que poderia, mas que eu ia até o apartamento dele verificar o que tinha acontecido.  Sem alternativa, o casal de amigos entrou no meu carro e fomos juntos.

Levamos cerca de 30 minutos para chegarmos lá. Era um prédio de 4 andares, sem elevador e ele morava no último andar. Por sorte eu tinha a chave.  Subi em disparada, abri a porta rapidamente e, ao entrar, deparei-me com ele caído no chão da sala.

Ele era um rapaz de 1,98m de altura e pesava mais de 90kg.  Estava ali caído, inerte. Meu amigo verificou o pulso, constatou que ele estava vivo e começou os procedimentos de primeiros socorros (ambos eram formados em Educação Física e tinham alguma noção).

Aos poucos meu namorado foi recobrando os sentidos, porém groge,  sem conseguir se expressar ou até mesmo ficar em pé. Olhamos em volta, encontramos um caixa do medicamento Gardenal totalmente vazia, uma garrafa de whisky pela metade e uma carta de despedida.  Sim, ele havia tentado suicídio.

Era preciso levá-lo para um hospital para ser socorrido imediatamente!  Não tínhamos telefone para chamar uma ambulância e não podíamos perder tempo. Olhamos um para o outro e entendemos o que tínhamos que fazer.  Levantamos ele do chão e nós dois, meu amigo e eu, o descemos pelas escadas por 4 andares.  Até hoje me pergunto como conseguimos erguer um homem de quase 2 metros de altura e quase 100 kg, totalmente inerte. Certamente fomos amparados pela espiritualidade, pois nenhum de nós tinha força física para isso.

Entramos no carro e seguimos para o hospital mais próximo.  Ele foi atendido prontamente, fizeram lavagem estomacal, medicaram e ele ficou internado por dois dias em observação.

O médico nos disse que se não chegássemos a tempo, ele não teria resistido. E hoje tenho a certeza de que foi a espiritualidade que o salvou. Fomos um canal. Sou grata por ter ouvido minha intuição.

Rossana Bentivoglio

Maio/2018

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